A descoberta do inconsciente, por Sigmund Freud no início do século passado, provocou uma reviravolta na ordem das coisas: assim como o sol não gira em torno da terra, a consciência não é o centro do ser humano… “A consciência é serva do inconsciente”, assim, Freud revelou ao mundo que a mente humana se divide em dois sistemas: o sistema consciente e o sistema inconsciente. É o nosso consciente que nos faz pensar que tudo sabemos, como formulou o filósofo Descartes: “Penso, logo sou”, por acreditar ser o nosso consciente o senhor da nossa existência.

Porém, somos comandados por outro sistema, pelo inconsciente, “… o outro eu mesmo que me faz querer coisas contra o meu querer, que me faz dizer coisas que quero calar, que me faz sonhar sonhos loucos …” Assim nos traz o psicanalista Antônio Quinet, e prossegue: “… O Eu consciente é o que queremos no posto de comando, mas a sua vontade é súdita, pois é o desejo que impera, é o desejo que é imperador, é imperativo…”

Que desejo é este que impera e também é imperativo?

Trata-se do desejo interno, inconsciente! Este desejo não diz respeito à escolha consciente, não passa pela nossa vontade ou preferência. O desejo inconsciente é aquele desconhecido da nossa consciência, uma espécie de “motivação vibrante e determinada”, que vem de dentro para fora e nos toma por inteiro, como um motor a nos mover pela vida, nos impulsionando a seguir em frente, a despeito dos obstáculos, ao encalço de um mais além… Como na música: “… A gente não quer só comida/ a gente quer comida/ diversão e arte…”

Porém, o nosso funcionamento mental é bem mais complexo. Freud percebeu que a nossa mente, além de ter um lado consciente e outro inconsciente, também é composta por outras partes. Uma delas, totalmente inconsciente, funciona segundo o princípio do prazer, seu objetivo é sempre obter satisfação; a única maneira de conhecer o seu conteúdo é indiretamente, através da decodificação das formações do inconsciente que irrompem bruscamente nos lapsos de linguagem, atos falhos, esquecimentos, trocas de nomes próprios e palavras e, também, nos sonhos e sintomas.

Os sintomas podem se apresentar com várias faces, pois a sua formação acompanha a cultura de uma época e a singularidade de cada pessoa. A sociedade hoje cultua a liberdade e o direito de escolha e, apesar do forte apelo à alegria, diversão e festas, frequentes nas redes sociais, o sintoma predominante no momento é a “depressão”. Contudo, muitas das pessoas que se intitulam “deprimidas”, na verdade passam por momentos de tristeza que, como a alegria, faz parte da vida, ou são lutos devido a alguma perda. O quadro clínico da depressão é de outra ordem.

O Ego, outra parte da nossa mente, está ligado à nossa imagem corporal, é ele que faz a intermediação entre o nosso mundo interno e o mundo externo. Preserva a nossa saúde mental – diante de uma situação muito ameaçadora, de dor, sofrimento ou vergonha insuportável, é ele que “filtra e joga” a ideia ameaçadora para o inconsciente. Temos também o Superego, nossa consciência moral, um “vigilante” incansável, até mesmo dos nossos pensamentos. Assim, as partes responsáveis por estas diferentes funções compõem o nosso psiquismo, partes estas que, quase sempre, discordam entre si. Daí nossos frequentes conflitos internos… que tanto nos atormentam e afligem!

A proposta clínica da psicanálise consiste, justamente, em desvendar tais conflitos a partir de conteúdos que emergem do inconsciente. Este dispositivo se diferencia dos outros métodos psicoterapêuticos, por consistir num processo que, para além do alívio dos sintomas, se dispõe a trabalhar na construção de uma verdade de cada pessoa em tratamento.

dra-regina