Um dos maiores problemas de saúde na atualidade é a Dor, principalmente nos casos crônicos. Ainda que seja fundamental para a vida, já que é uma das principais formas de alerta quanto às disfunções do organismo, sua cronificação leva a um alto impacto do ponto de vista da qualidade de vida, afetando o trabalho, relações interpessoais e atividades físicas e de lazer.

Um estudo realizado na cidade de São Paulo mostra que quase 30% da população sofre com algum tipo de dor crônica. Um outro estudo multicêntrico mundial mostra que a dor crônica lombar é hoje a principal patologia quanto a custos de saúde, dias de trabalho perdidos, consultas médicas e perda de qualidade vida. Dentre as quatro maiores causas de anos vividos com má qualidade, a Dor Lombar e a Dor Cervical ocupam a primeira e a quarta posição, respectivamente, acompanhadas da Depressão e da Anemia. Desta forma, seu entendimento e adequado manejo podem ser considerados fundamentais devido ao alto impacto social e financeiro, consistindo em grave problema de saúde pública.

Quando estudamos a dor crônica, é importante que tenhamos em mente um conceito importante, que será a base para o correto diagnóstico e tratamento – o conceito da Dor Total. Na década de 1960-1970, uma enfermeira britânica chamada Cicely Saunders desenvolveu um trabalho na área de tratamento da dor e cuidados paliativos (foi pioneira no desenvolvimento deste tipo de abordagem), conceituando um termo chamado de Dor Total. Baseando-se em suas observações nos cuidados com pacientes hospitalizados, percebeu que a dor não era apenas física, mas envolvia também aspectos emocionais, sociais e espirituais, que estavam diretamente relacionados à intensidade da dor percebida pelo indivíduo, seu comportamento frente à mesma e resposta ao tratamento. Desta forma, ao abordar de forma mais ampla o paciente, conseguia melhorar os resultados dos tratamentos, com menor intensidade de dor e recuperação mais rápida.

Atualmente, temos discutido amplamente a questão da atenção integral à saúde. Ao abordarmos uma determinada patologia e seu tratamento, é fundamental entendermos que a mesma está inserida no contexto de vida do paciente, suas experiências vividas, seu sistema de crenças. Ao avaliarmos o indivíduo como um todo, de maneira aprofundada, observando os detalhes de sua história e realizando um exame físico minucioso, conseguimos melhorar nossa capacidade diagnóstica, diminuindo custos e riscos com tratamentos inadequados ou inócuos, atingindo assim melhores resultados.
Dentro deste conceito, consideramos a avaliação e diagnóstico da dor como um exemplo da necessidade deste tipo de abordagem. A Dor possui, além da sua caracterização do ponto de vista biomédico, aspectos Cognitivo-Comportamentais, Afetivo-Emocionais, Religiosos, Sociais, que se inter-relacionam para definir sua representação para aquela pessoa. Desta forma, seu correto manejo depende essencialmente de uma abordagem multi e interdisciplinar, que envolve diversos profissionais, como médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, entre outros.

Outro fator importante a ser considerado na dor crônica é a sensibilização central. Com o tempo e/ou intensidade da dor, ocorrem mudanças estruturais nos neurônios medulares, que transmitem a informação de dor para o cérebro, bem como nos próprios centros cerebrais processadores desta informação. Com isso, há diminuição da tolerância à dor, o estímulo doloroso torna-se espontâneo (não há mais a necessidade de processo inflamatório ativo) e ocorre um processo adaptativo nas estruturas do cérebro à condição dolorosa contínua, perpetuando desta maneira o quadro. Esta consideração é importante, já que muitas vezes o fator inicial causal já não existe mais ou tem participação reduzida no processo doloroso, devendo-se direcionar o tratamento para esta condição.

Por fim, devemos ressaltar a importância da Fisioterapia e da Psicoterapia para estes pacientes. A manutenção da atividade do corpo, liberando estruturas miofasciais e restaurando o movimento natural articular e muscular é imprescindível. Quando estamos em movimento, ativamos nossos centros naturais de controle da dor, que por outro lado são desativados quando estamos em repouso. Além disso, reforçamos uma mensagem positiva para nosso cérebro, de que somos capazes de realizar aquelas atividades que desejamos ou necessitamos. Dentro da Psicoterapia, sabemos que nossa experiência de dor está relacionada ao nosso sistema de crenças, experiências vividas, e todos os sentimentos delas derivados, que com o tempo se traduzirão em padrões de comportamento e manifestações físicas associadas.

Desta forma, pacientes com crenças limitantes relacionadas à dor, levando a sentimento de raiva, frustração e um comportamento catastrofista frente ao quadro, vão progressivamente se fechando e evitando movimentos e atividades de trabalho, esportivas, de lazer, com perda drástica de sua qualidade de vida. A isto damos o nome de Fear Avoidance Beliefs (crença na evitação de tudo aquilo que provoca medo de sentir dor – tradução livre).

A Dor Crônica é um dos maiores problemas de saúde em todo o mundo. Sua abordagem deve ser minuciosa e sistemática, multidisciplinar, sempre considerando o indivíduo como um todo, inserindo assim sua dor dentro do seu contexto de vida e trabalhando o seu mental e emocional em prol do seu corpo físico. Parafraseando Cicely Saunders, termino dizendo: “Conforme o corpo se torna mais fraco, o espírito deve se tornar mais forte”.