Nem sempre a infância e a adolescência foram percebidas e tratadas como hoje. Durante séculos a criança e o adolescente participavam, naturalmente, das atividades do mundo adulto – do trabalho às comemorações, festas e até de bacanais.

Nem sempre a infância e a adolescência foram percebidas e tratadas como hoje. Durante séculos a criança e o adolescente participavam, naturalmente, das atividades do mundo adulto – do trabalho às comemorações, festas e até de bacanais.

Somente a partir do século XX, ou seja, há pouco mais de 100 anos, a ideia da adolescência como uma fase do desenvolvimento do homem passou a ser vista e cuidada, realmente, de forma diferenciada.

Em 1905, Sigmund Freud percebeu que a adolescên-cia, como a chamamos hoje, se caracterizava por ser uma fase de transição, uma passagem da infância para a vida adulta. Freud, naquela época, chamou de puberdade o conjunto de transformações físicas e psíquicas que marcavam o início dessa nova fase na vida do sujeito exigindo dele um intenso trabalho psicológico.

As mudanças no corpo muitas vezes percebidas como “invasivas, descontroladas”, por acontecerem independentemente da vontade do jovem; a perda dos “poderosos pais”, idealizados, da infância; e um excesso de energia libidinal a jorrar de dentro de si atormentavam o jovem provocando angústia e exigindo dele respostas! Surgiam questões como: “o que é ser homem ou ser mulher? Como fica a possibilidade do encontro amoroso? Como fazer uma escolha profissional? Como me sentir “parte integrante” de um grupo determinado? Como construir uma identidade própria? Perguntas desta ordem, além de outras, brotavam em tom de urgência nesse momento da vida!

Mas o mundo de hoje mudou, tornando ainda mais complexas as elaborações destas mudanças da adolescência!
Vivemos atualmente em um novo contexto social, o que acarreta consequências para o adolescente, exigindo dele ainda mais trabalho. A queda das figuras de autoridade, principalmente do “nome do pai”, tem resultado na ausência de limites e de referências que, além de provocar um vazio na vida do sujeito, deixa-o bastante perdido e desorientado. Como construir a própria identidade sem estes parâmetros?

As atitudes e manifestações de humor do adolescente podem oscilar desde a onipotência absoluta até a mais completa impotência! Tudo isto deixa pais e professores atônitos, sem saber o que fazer ou como agir!

O capitalismo, ao deslocar o eixo da produção para o consumo, passa a bombardear o adolescente com a ideia de que o acesso irrestrito e ilimitado aos objetos é a garantia da plenitude do prazer. Diante disso, como suportar as frustrações impostas pela realidade, se o que a mídia, juntamente com as redes sociais, propaga é nada menos que o direito à satisfação total e imediata? Nossa “cultura da felicidade” proíbe qualquer modo de sofrer pregando que é possível viver sem dor. Sem lugar e sem senti-do, o sofrimento, que não é “acolhido”, retorna sobre o adolescente que não sabe o que fazer com ele…

Como fazer a transição da adolescência sem o acolhimento ao mal-estar e à angústia, inerentes a ela? Relacionamentos virtuais, excesso digital, consumismo exagerado, exposição da intimidade, uso de drogas, atos delinquentes, apatia e tédio, sintomas no corpo, na relação com o saber e na alimentação…Seriam estas algumas das alternativas ou “saídas” a que o adolescente de hoje estaria se agarrando na tentativa de se “sustentar” na vida?

Se o vínculo social se vê traspassado por estas trans-formações e as relações já não são mais como antes, a quem ele poderá endereçar as suas dúvidas e inseguranças? A que recursos o adolescente de hoje poderá recorrer para atravessar a sua “dor-de-ser”?

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